Homens vs. Mulheres – Diferenças na Farmacocinética

Muitos acadêmicos tendem a se perguntar de forma repetitiva “quais as diferenças entre homens e mulheres no quesito Farmacocinética?”

O artigo de 2014, intitulado “Gender Differences in Pharmacokinetics” da autora Teresa Chu, publicado pela U.S. Pharmacist aponta algumas diferenças entre os mesmos e é sobre esse tema o assunto de hoje.

É sabido que cobaias masculinas são preferíveis em testes clínicos devido a estabilidade hormonal apresentada por machos frente as fêmeas, podendo ser visualizado de maneira mais clara, ou seja, com menos interferência hormonal, os resultados que a droga em teste pode apresentar. Porém muitos pesquisadores questionam esta exclusividade devido a falta de resultados destas drogas no público feminino, que possui diferenças fisiológicas concretas mas não possui dados que possam ser utilizados na posologia e forma de tratamento individualizada deste gênero.

Existem outros pontos importantes que podemos citar no quesito diferença entre os gêneros, temos por exemplo, o metabolismo de fase 1 e 2 que são bem distintos entre homens e mulheres. Várias enzimas do CYP450 (com destaque para as responsáveis pela fase 1) possuem atividade gênero-dependente. Grande parte das enzimas responsáveis pela fase 2 possuem maior atividade no homem do que na mulher.

(Estudos mostram que tais padrões podem ser alterados frente a gravidez e com uso de contraceptivos orais).

Como exemplo prático, temos que o FDA aprovou doses menores de Zolpidem para mulheres com base em 14 estudos contendo avaliações sistemáticas sobre o uso do droga, demonstrando que mulheres possuem maior suscetibilidade ao medicamento do que os homens. Este efeito, segundo os estudos, se dá devido ao clearance de Zolpidem ser mais demorado na mulher do que no homem, o que acaba por ocasionar um prolongamento do efeito por horas.

O artigo afirma que existem diferenças de entre os gêneros nas quatro clássicas etapas que definem a farmacocinética, onde o maior índice de diferenças encontra-se no metabolismo, acredita-se.

Na tabela abaixo, retirada do artigo em questão, é expresso alguns exemplos de enzimas frente suas atividades em cada gênero, confira:

Como mostra a tabela acima, a CYP1A2 (enzima primária no metabolismo de drogas como a Olanzapina e a Clozapina) mostra-se com uma atividade maior nos homens, logo o clearance destas drogas antipsicóticas é mais acelerado em homens que nas mulheres. As mulheres possuem uma reposta melhor a estes tipos de medicamentos, isto se dá, devido ao metabolismo ser mais demorado e as formas ativas dos medicamentos passarem mais tempo no organismo. Porém, como a presença do fármaco é mais demorada no organismo, elas sofrem com efeitos secundários não tão comuns nos homens.

Outro ponto importante a ser salientado é que a maioria das enzimas responsáveis pela fase 2 metabólica, como já falado anteriormente, encontram-se em maior atividade nos homens do que nas mulheres, veja a tabela abaixo:

(Tabela extraída do artigo supracitado)

Nas outras fases farmacocinéticas também podemos notar certas discrepâncias entre os gêneros humanos. Temos, por exemplo, que as mulheres absorvem o álcool de forma mais rápida e eficaz devido a baixa atividade (quando comparada com o homem) da enzima álcool desidrogenase, responsável pela oxidação do álcool. Sendo assim, as mulheres possuem um pico de concentração plasmática de álcool mais elevado, em termos de velocidade, quando comparamos com a absorção dos homens.

Comparado com os homens as mulheres possuem uma porcentagem maior de gordura corpórea e menor concentração de água corpórea o que pode afetar diretamente o volume de distribuição de certas drogas. Temos que para drogas lipofílicas como opióides e benzodiazepínicos o volume de distribuição é usualmente maior em mulheres, devido a tais drogas se acumularem no tecido adiposo por possuirem maior afinidade pelo mesmo.

Tanto o  volume de sangue renal como a taxa de filtração glomerular são mais elevadas nos homens do que nas mulheres. Logo, as mulheres apresentam uma redução do clearance de drogas que são ativamente eliminadas pelo rim. Como por exemplo: Digoxina, Metotrexato, Gabapentina e Pregabalina.

Existem vários outros parâmetros que podem ser listados que corroboram com a temática acima. Com este acervo de informações na literatura podemos caminhar, cada vez mais, para o uso cabal de uma dose individualizada. De forma ímpar e selecionada, podemos garantir a saúde do nosso paciente como ele merece.